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Nova redação da NR-01 gera novos custos para a indústria?

O maior impacto financeiro pode estar justamente na falta de prevenção.

05/06/2026

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A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) colocou um novo tema no radar das indústrias brasileiras. Desde que os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho passaram a integrar o gerenciamento de riscos ocupacionais, uma pergunta tem se repetido em reuniões, treinamentos e discussões empresariais: a nova redação da norma vai gerar novos custos para as empresas?

A dúvida é compreensível. Afinal, toda mudança regulatória costuma ser acompanhada por preocupações relacionadas a investimentos, adequações e impactos operacionais.

Mas a resposta não é tão simples quanto parece.

A atualização da NR-01 não cria uma nova estrutura de gestão dentro das empresas nem estabelece a necessidade de programas paralelos aos que já existem. O que a norma faz é ampliar o olhar sobre fatores que já estavam presentes na rotina das organizações e que, muitas vezes, já geravam custos significativos sem serem percebidos como riscos ocupacionais.

Afastamentos, absenteísmo, rotatividade, conflitos internos, perda de produtividade, falhas de comunicação, retrabalho e dificuldades na retenção de talentos estão entre os desafios enfrentados por empresas de todos os portes e segmentos. Em muitos casos, esses problemas têm relação direta com fatores ligados à organização do trabalho e às condições psicossociais vivenciadas pelos trabalhadores.

A atualização da NR-01 reforça uma discussão que já vinha ganhando espaço dentro das empresas: o impacto da saúde mental e do ambiente organizacional sobre os resultados do negócio.

O que muda na prática

A principal mudança está na forma como os riscos ocupacionais passam a ser avaliados.

Até então, a atenção das empresas costumava se concentrar principalmente nos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes. Com a atualização da norma, fatores psicossociais relacionados ao trabalho também passam a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documento obrigatório para identificação, avaliação e controle dos riscos presentes nos ambientes de trabalho.

Na prática, isso significa observar aspectos relacionados à organização das atividades, à comunicação interna, à liderança, às relações interpessoais, à sobrecarga de trabalho e a outras condições que possam impactar a saúde dos trabalhadores.

Não se trata simplesmente de criar um programa ou uma nova exigência documental.

Trata-se de incorporar uma dimensão que já influencia o dia a dia das empresas e que, até pouco tempo atrás, nem sempre era analisada de forma estruturada.

O custo está na adequação ou na falta dela?

Para o gerente executivo de Segurança, Saúde e Responsabilidade Social do Sesi Paraná, Robson Gravena, uma das principais percepções equivocadas sobre a atualização da NR-01 é associar a norma exclusivamente ao aumento de custos.

"Quando falamos sobre riscos psicossociais, muitas empresas imediatamente pensam em novas despesas. Mas é importante olhar para o outro lado da equação. Quanto custa um afastamento? Quanto custa perder um profissional qualificado? Quanto custa a queda de produtividade provocada por problemas que poderiam ter sido identificados e tratados preventivamente? A atualização da NR-01 traz justamente essa reflexão".

Segundo ele, a norma não deve ser encarada apenas como uma exigência regulatória, mas como uma oportunidade de aperfeiçoar a gestão sobre ambientes e organização do trabalho.

"A prevenção sempre foi o caminho mais eficiente quando falamos de segurança e saúde. Agora, esse olhar também passa a considerar fatores que impactam diretamente o bem-estar dos trabalhadores e o desempenho das equipes. Empresas que conseguem identificar seus riscos de forma antecipada tendem a reduzir perdas e fortalecer seus resultados".

A produtividade também entra nessa discussão

Embora a atualização da NR-01 esteja associada à segurança e saúde ocupacional, seus reflexos vão além dessas áreas.

Nos últimos anos, produtividade, retenção de talentos e competitividade passaram a ocupar espaço crescente nas estratégias empresariais. Ao mesmo tempo, questões relacionadas ao adoecimento mental, ao engajamento das equipes e à qualidade das relações de trabalho tornaram-se desafios cada vez mais presentes dentro das organizações.

Nesse cenário, a gestão dos riscos psicossociais deixa de ser apenas uma questão de conformidade legal. Ela passa a fazer parte da estratégia de negócios.

Empresas que convivem com altos índices de rotatividade, absenteísmo e retrabalho frequentemente enfrentam impactos diretos em sua capacidade produtiva. Por outro lado, ambientes mais saudáveis e organizados tendem a favorecer o engajamento, a estabilidade das equipes e a eficiência operacional.

Por isso, a nova redação da NR-01 deve ser compreendida não apenas sob a ótica da obrigação, mas também como uma oportunidade de melhoria contínua da gestão de riscos ocupacionais.

Segurança que gera resultados

A percepção de que a prevenção gera benefícios que vão além da conformidade legal também é compartilhada por empresas que já vêm estruturando seus processos de gestão de riscos de forma contínua.

Na Delta Rótulos e Etiquetas, indústria paranaense que desenvolve seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) em parceria com o Sesi Paraná, a atualização da NR-01 é vista como mais um passo na evolução das práticas de gestão e cuidado com as pessoas. Certificada pela norma ISO 9001 desde 2018, a empresa já possuía uma cultura voltada à melhoria contínua, mas reconhece que a nova redação da norma amplia o olhar para desafios que se tornaram cada vez mais presentes no ambiente de trabalho.

Segundo o sócio da Delta, Mauricio Macioski, a discussão sobre fatores psicossociais relacionados ao trabalho representa uma oportunidade para que as empresas compreendam de forma mais ampla os riscos que podem impactar seus colaboradores e seus resultados.

"A certificação ISO 9001 já nos ajudava a desenvolver um olhar diferenciado para o ambiente de trabalho e para a segurança dos trabalhadores. Mas a NR-01 traz elementos que vão além dos riscos físicos tradicionais e nos desafia a olhar também para questões como estresse, burnout e assédio. Para a Delta, esse tem sido um processo muito interessante de crescimento e desenvolvimento, que contribui para construirmos uma empresa melhor a cada dia", afirma.

Para Macioski, embora a implementação de novas ações exija investimentos, o custo da prevenção é significativamente menor do que os impactos gerados pela falta dela.

"Até pouco tempo atrás, esse tipo de gestão era visto como uma preocupação mais presente em grandes empresas. Hoje, essa realidade afeta organizações de todos os portes. A sociedade mudou, a velocidade das informações aumentou, a pressão exercida pelas redes sociais é cada vez maior e tudo isso influencia diretamente as pessoas dentro e fora do trabalho. É claro que existem investimentos envolvidos, mas essa é a única forma de enfrentar o problema e evitar perdas ainda maiores relacionadas a afastamentos, queda de produtividade e outros impactos para o negócio", destaca.

A experiência da Delta também evidencia como o Programa de Gerenciamento de Riscos pode se transformar em uma ferramenta estratégica para a gestão da empresa quando desenvolvido de forma estruturada.

Segundo o empresário, o apoio técnico do Sesi Paraná foi fundamental para ampliar a compreensão dos riscos e fortalecer uma cultura de prevenção dentro da organização.

"A equipe do Sesi Paraná nos impressionou pelo conhecimento técnico e pelo profissionalismo demonstrados desde o início do processo. Além da elaboração do PGR, recebemos apoio em programas como PCMSO, LTCAT, ASO e demais requisitos legais. Também contamos com suporte para a constituição da CIPA, treinamentos e palestras voltados à melhoria do ambiente de trabalho. O resultado é um ambiente não apenas mais seguro, mas também mais colaborativo e favorável à qualidade de vida dos trabalhadores", conta.

Para ele, o gerenciamento de riscos não deve ser encarado como uma ação pontual, mas como um processo permanente de aperfeiçoamento: "esse trabalho exige dedicação, energia e comprometimento de todos. Mas é um processo contínuo, que não pode parar. O objetivo é construir um ambiente cada vez melhor para as pessoas e um futuro mais sustentável para as empresas".

 

A mudança já faz parte da realidade das empresas

A atualização da NR-01 chega em um momento em que as organizações são desafiadas a produzir mais, inovar mais e atrair profissionais cada vez mais qualificados.

Nesse contexto, a gestão dos riscos ocupacionais também evolui.

A inclusão dos fatores psicossociais no gerenciamento de riscos não cria um novo problema para as empresas. Pelo contrário. Ela amplia a capacidade de identificar situações que já afetam a saúde dos trabalhadores, a produtividade das equipes e os resultados dos negócios.

Por isso, a principal pergunta talvez não seja quanto custa adequar-se à nova redação da NR-01. A questão é quanto custa ignorar riscos que já estão presentes dentro das organizações.

Para um número crescente de empresas, a resposta está cada vez mais clara: prevenir continua sendo mais eficiente, e menos custoso, do que remediar.

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