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Os pais devem acolher e acompanhar com amor a vida adolescente de seus filhos

09/06/2022

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“Os adolescentes são a possibilidade de renovação do próprio olhar sobre o mundo”. Com essa frase, Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, escritor e terapeuta familiar abriu a live “A exaustão, o estresse e o burnout entre adolescentes” para pais e responsáveis dos alunos dos Colégios Sesi da Indústria e Sesi Internacional, na última quarta-feira, 7 de junho, no Canal da Indústria do Sistema Fiep, no YouTube. 

A partir de uma conversa envolvente, com exemplos reais do nosso tempo, Alexandre tocou profundamente a todos que estavam acompanhando a transmissão, clareando pensamentos e, por meio de provocações reflexivas, apontou caminhos possíveis para um novo olhar e um novo momento entre pais e filhos. 

O estresse, a exaustão e o burnout são fenômenos psicossociais ligados a forma e a origem do nosso tempo. Essas palavras passaram a fazer sentido a partir do jeito que a sociedade passou a se estruturar. Passaram a fazer sentido na virada do milênio com a aceleração da vida”, revelou Alexandre. 

Confira a seguir os principais momentos dessa conversa. 

>> O adolescente vai descobrir o mundo a partir do seu próprio olhar e o papel dos pais está relacionado ao acolhimento 

"A criança conhece o mundo a partir do olhar do adulto, mas quando essa criança adolesce, ela deseja ir para o mundo para conhecê-lo, percebê-lo e testá-lo a partir do seu próprio ponto de vista”. Com esta reflexão, o famoso terapeuta familiar e psicólogo do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, abriu um dos primeiros blocos da conversa falando sobre a descoberta do mundo pelo olhar do adolescente e o papel dos pais neste processo. 

“Ir para o mundo pode ser ler um livro, assistir a um filme ou uma série, visitar um amigo e conhecendo sua casa e sua família, ou entrar na internet. Isso é o mundo e quando o adolescente ‘volta’, precisamos nos perguntar, enquanto adultos, qual a nossa disponibilidade para recebermos de volta os olhares dos nossos adolescentes, depois de ‘visitarem o mundo’. Todo adolescente vai dizer que tem mais coisa no mundo do que meu pai e minha mãe me ensinou”, diz Alexandre. “Na adolescência, ele tem vontade de expansão e quando ‘retorna do mundo’ temos um conflito entre o ‘aquilo que eu quero’ e o ‘aquilo que eu tenho/preciso ou não tenho/não posso fazer’. Precisamos ter disponibilidade para conversar sobre essas divergências”, alertou. 

 

>> A questão dos rótulos 

“Os rótulos desconectam os adolescentes de nós e o que precisamos é de conexão”, alertou o psicólogo, que também é colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas. Precisamos construir uma estrada que ligue o nosso coração ao coração dos nossos filhos adolescentes; é esse elo de ligação que vai conectar a vertente para todos os lados, mas essa construção exige disponibilidade”, acrescentou. 

 

>> Burnout: o estado de alerta que gera ansiedade no corpo e na alma 

Nós estamos andando na velocidade vezes dois. A melhor metáfora do que está acontecendo é a possibilidade de acelerarmos os áudios do WhatsApp sem ouvirmos e prestarmos atenção à voz, aos sentimentos e as pausas das pessoas”, disse Alexandre. 

Segundo ele, estamos vivendo como o coelho acelerado do filme Alice no País das Maravilhas, mas essa aceleração é algo incompatível com o ser humano e é isso que tem causado esse estado de alerta constante, a busca por audiência e aceitação, a hiper conexão e, como consequência, o burnout e todos os demais sintomas psíquicos relacionados. 

“Essa aceleração está produzindo patologias em série em nós, seres humanos. Já se fala que o burnout é uma doença ocupacional categorizada pela OMS como um fenômeno relacionado ao clima das organizações (empresa, escola, família); instituições da vida que funcionam de uma maneira que geram burnout em seus membros”, alertou. 

“Essa é uma patologia que deve ter o olhar voltado não somente para os indivíduos, mas para o funcionamento das culturas. Evitar o burnout significa construir uma contracultura a essa aceleração. É dar e respeitar o tempo de pausa; é fazer uma fronteira bem nítida entre o que é trabalho, o que é escola e o que é lazer. É não contaminar o nosso tempo de lazer com o trabalho”, disse. 

 

>> Telas: as grandes invasoras do tempo de descanso – a importância do silêncio e a adultez madura 

“As telas são as grandes invasoras do nosso tempo de descanso. Para nos regenerarmos dessa ansiedade que o trabalho provoca, nós precisamos de pausa e estamos sendo invadidos, em todos os nossos momentos, por mensagens, vídeos, memes, stories, dancinhas de TikTok e séries. Estamos o tempo inteiro conectados e não temos mais tempo para o silêncio. A ausência do silêncio da vida é o que está nos levando à exaustão”, disse Alexandre. 

Segundo ele, a tela é um anestésico para as nossas emoções. “Vivemos tempos que exigem muito das nossas emoções e por isso estamos imersos nas telas, para nos anestesiar. O maior problema das telas é que elas são mais fáceis, mas não reproduzem as complexidades dos relacionamentos, as experiências de trabalho e não frustram da mesma forma que a vida”, completou. “A adultez madura exige habilidades para se frustrar e continuar vivendo; por outro lado, cada vez mais nossos adolescentes se tornam menos tolerantes à frustação”, disse. 

Para Alexandre, o problema da tela é que ela acostuma a pessoa a um nível de facilidade para receber tudo aquilo que não tem relação com o processo da vida. “O processo da vida é caótico e nos exige o tempo inteiro. O processo da vida é o cair e levantar. A vida é atravessa por aquilo que eu quero, o que eu posso, o que é possível, e o que eu preciso aprender. O problema da tela é que ela é construtora de uma deficiência na relação das pessoas com os relacionamentos mais banais do cotidiano”, revelou. 

 

>> O uso das Redes e a ansiedade gerada pela audiência 

Segundo Alexandre, que também é autor do livro "Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise", existe uma deturpação da moeda da autoestima e a atenção das pessoas virou um produto do nosso tempo. “Uma parte da ansiedade, a ansiedade existencial, é inerente à vida e tem relação com o fato de fazermos escolhas; mas a ansiedade que estamos falando é decorrente da cultura acelerada e da necessidade que nossos adolescentes sentem, o tempo inteiro, de confirmar que são aceitos e amados pelos outros, a partir do posicionamento que eles têm em suas redes sociais”, alertou. 

Segundo ele, o adolescente se sente um SER sendo preparado para uma maratona, só que com poucos recursos para lidar com ela. “O mudo diz ande rápido que você está perdendo o seu tempo. Isso gera um problema sério de autoimagem. Os pais precisam refletir sobre como podem acolher a ansiedade natural dessa fase e apoiá-los a se tornarem adultos fortes frente à essa sociedade demandante”, provocou Alexandre. 

 

>> Cinco palavras da nossa época: controle, comparação, cobrança, performance e foco 

Durante a live, Alexandre mostrou, de maneira clara, como o mundo está organizado em torno dessas palavras e como isso têm provocado o burnout nos adolescentes. “O tempo inteiro a pessoa nunca está boa o suficiente; sempre tem algo a melhorar; ela é cobrada, o tempo inteiro, para ter muita disciplina e muito foco para chegar no topo do sucesso. Essa é a sensação que provoca o burnout nesse adolescente e esses lembretes que são feitos a nós estão dados na cultura. Esses lembretes, aparentemente doces, constroem as mazelas psíquicas do nosso tempo: depressões, ansiedades, fobias, desencantos, tédios, compulsões e problemas de controle em relação à comida e jogos. Temos questões do nosso tempo que vão aparecendo e que nos levam à Freud com o filho ideal e o filho real”, revelou. 

>> Parte da dor de ser mãe e de ser pai é aceitar que nossos filhos não são a nossa continuação 

“Quanto mais o filho cresce mais ele vai nos dizendo quem ele é de verdade e não como nós imaginávamos que ele fosse; e parte da dor de ser mãe e de ser pai é aceitar que nossos filhos não são a nossa continuação”, explicou Alexandre. “Eles são outras pessoas e isso é parte da dor da maternidade e da paternidade. Devemos dar aos nossos filhos o direito de serem pessoas separadas dos nossos desejos e daquilo que escrevemos como um script; um roteiro para a nossa vida”, afirmou. 

Segundo ele, os filhos nos mostram, o tempo inteiro quem eles são. “A cada nova fase dos nossos filhos zeramos esse jogo e, de novo, precisamos nos disponibilizar para entender quem é essa criança. Sempre que mudamos de fase vamos nos deparar com outros contornos e outras características, muitas vezes diferentes daquelas que a gente gostaria de ver, por isso precisamos, o tempo todo, estabelecer acordos temporários e possíveis”, acrescentou. 

“Se pensamos a adolescência como a fase de preparação para a adultez, a identidade precisa de autonomia. Isso não quer dizer não dar limites; Autonomia significa respeitar a integridade do outro. E uma adultez bem-sucedida significa autoria; ser dono da própria vida; ser dono do próprio destino, da própria história, dos próprios desejos e do próprio futuro. Vamos ensinando os nossos adolescentes, desde cedo, a serem donos da própria vida. Para isso, precisamos de um olhar apreciativo para eles, em um mundo em constante movimento e transformação”, finalizou Amaral. 

E se você é pai ou adulto responsável por algum aluno matriculado em uma das unidades dos Colégios Sesi da Indústria ou Sesi Internacional pelo Paraná, entre em contato com a secretaria da sua unidade e peça o link da live. Ela ficará salva por um período de seis meses, em link exclusivo para a nossa comunidade escolar. :D